Publicado em 08-03-2010
O radicalismo que marca as discussões sobre preservação ambiental versus produção agrícola provoca danos que vão além do enfrentamento político constante para a definição dos limites a serem respeitados pela agricultura. À medida que se adia o consenso e não se consegue deter práticas nocivas ao ambiente, é prorrogada a devastação. Fauna e flora pagam a conta da inflexibilidade por parte de ambientalistas e ruralistas há mais de uma década.
Em que pese o fato de o Brasil ser um dos países que possui maior proporção de áreas preservadas 56% dos seis biomas do país conservam características originais, conforme o governo federal , não estamos desobrigados de proteger a natureza, em nome desta e das futuras gerações. Porém os representantes do setor agrícola dizem não aceitar ordens de ecologistas financiados por países que devastaram mais de 90% de seu território. Os ambientalistas, por sua vez, alegam que nada justifica o contínuo desmatamento e se referem aos representantes do agronegócio como exterminadores do futuro .
Em meio a esse fogo cruzado, o que prevalece é a exploração descontrolada dos biomas brasileiros. O Código Florestal tem mais de 40 anos e jamais foi respeitado integralmente. Assim, o entendimento e a elaboração de estratégias que deixem claras as condições de produção se tornou essencial para que essa discussão assuma outro curso o dos efeitos práticos, do apontamento de soluções.
Um primeiro passo nesse sentido está sendo dado pela Confederação da Agricultura e pecuária do Brasil (CNA). A organização se associou à Embrapa Florestas (Colombo, PR) para implantar seis fazendas-vitrines que devem mostrar como produzir sem agredir o ambiente. Os pesquisadores se encarregam de estudar os impactos das mais diversas atividades rurais cultivo de grãos, florestas, criação de animais e de impor limites, que os produtores rurais deverão respeitar.
A presidente da CNA, senadora Kátia Abreu (DEM-TO), diz que o setor admite a ciência como juiz, mas não os ambientalistas. E que a CNA vai aceitar exigências ecológicas que limitem a exploração do meio rural. Os estudos da Embrapa serão parcialmente financiados pela organização.
A confederação dos sindicatos rurais espera mais do que bons exemplos. Quer influir nas discussões que pautam a reforma da legislação ambiental brasileira. As vitrines , que serão fazendas produtivas escolhidas para estudo científico, devem se tornar referências para as discussões no Congresso.
As manifestações sobre o assunto que partem das organizações defensoras do ambiente fazem o projeto parecer mais um indício de que o governo está associado aos ruralistas. Que a Embrapa assumiu, enfim, de que lado está. Poucos acreditam que bandeiras como a do desmatamento zero estejam mesmo sendo colocadas nas mãos dos produtores rurais.
Entre entusiastas e incrédulos, a pecuária de Mato Grosso assinou na última semana termo de compromisso prometendo evitar mais devastação. Os frigoríficos se comprometem a não comprar animais oriundos de áreas que praticam desmatamento ilegal. Eles devem atuar como fiscais, exigindo apresentação de licenças ambientais, comprovantes de contratação de mão de obra regular. As empresas prometem recusar animais de áreas indígenas ou quilombolas, ou que sejam palco de violência agrária.
Iniciativas como essas não são suficientes para uma definição dos rumos da produção agrícola nacional. As discussões precisam avançar, mesmo em ano eleitoral, para que a preservação seja uma prática sustentável e não assunto capaz de colocar a sociedade contra
Fonte: Gazeta do Povo